Goleiro Dyogo Alves, que sobreviveu ao incêndio no Ninho, integra elenco do Flamengo na final

Do alojamento do CT ao banco de reservas na decisão continental, a história de Dyogo Alves mistura dor, recuperação e uma chance rara de redenção esportiva. O goleiro, que dormia no dormitório do Ninho do Urubu na madrugada de 8 de fevereiro, foi um dos sobreviventes do incêndio que deixou 10 jovens mortos e outros três feridos, e, em 2025, aparece como opção no elenco profissional do Flamengo enquanto o clube disputa a final da Libertadores.

Do incêndio ao contrato profissional

Naquela madrugada, Dyogo Alves tinha 15 anos. Ele ficou internado por sete dias após o incêndio, e, segundo a apuração, foi o único sobrevivente do alojamento juvenil a chegar ao elenco profissional do clube. O goleiro assinou o primeiro contrato profissional com o Flamengo em março de 2020, e, neste 27 de novembro de 2025, com 21 anos, aparece como a terceira opção para a posição, atrás do argentino Rossi e de Matheus Cunha.

Em entrevista à imprensa na recuperação, Dyogo Alves disse: “Faz pensar por eles. Todos queriam estar aqui e ter essa oportunidade. Sei que estão em um lugar melhor que a gente. Deus naquela hora não queria me levar, queria deixar para fazer história com a camisa do Mengão ou de outro clube”. A frase tem sido lembrada como síntese da mistura de culpa do sobrevivente e ambição profissional que marca sua trajetória.

Formação, estilo e homenagens

Antes conhecido como Francisco Dyogo, o jovem passou a usar Dyogo Alves em homenagem ao ídolo Diego Alves, goleiro do time principal que visitou o garoto no hospital durante a recuperação. “Eu me inspiro muito nos goleiros do profissional do Flamengo. Quero continuar o trabalho para alcançar o nível deles. Meu preferido é o Diego Alves. Temos semelhança ao saber jogar com os pés, defender bem debaixo do gol. Fico vendo vídeos dele. Defendi alguns pênaltis, mais de cinco na carreira, que eu me lembre”, afirmou ele em entrevista ao jornal Extra, em fevereiro de 2020.

No período seguinte, Dyogo Alves alternou entre atividades no elenco principal e jogos pela base. Em 2023, foi herói da conquista do Brasileiro sub-20 ao defender uma cobrança nas penalidades, experiência que reforçou sua imagem como promessa entre os arqueiros formados no clube.

Memória das vítimas e processo judicial

O incêndio no Ninho do Urubu causou 10 mortes, todas de atletas da base, com idades entre 14 e 16 anos, e deixou três feridos. As vítimas fatais foram listadas pelos veículos de imprensa na época como Athila Paixão, 14 anos, Arthur Vinícius, 14 anos, Bernardo Pisetta, 15 anos, Christian Esmério, 15 anos, Gedson Santos, 14 anos, Jorge Eduardo, 15 anos, Pablo Henrique da Silva Matos, 14 anos, Rykelmo Viana, 16 anos, Samuel Thomas Rosa, 15 anos, e Vitor Isaias, 15 anos.

No âmbito penal, sete réus chegaram a ser julgados em primeira instância, e foram absolvidos pelo juiz Tiago Fernandes Barros, da 36ª Vara Criminal, que apontou ausência de nexo causal ao analisar os atos dos réus. Entre os nomes absolvidos estão Márcio Garotti, Marcelo Maia de Sá, Danilo Duarte, Fabio Hilário da Silva, Weslley Gimenes, Claudia Pereira Rodrigues, e Edson Colman. O Ministério Público do Rio de Janeiro, no entanto, recorreu da decisão, argumentando uma série de negligências do Flamengo e dos réus que, segundo o órgão, criaram no centro de treinamento um “ambiente de morte”. Na esfera cível, o MP pede indenização para as famílias das vítimas.

Na final da Libertadores, a chance de um novo capítulo

Enquanto torcedores celebravam conquistas, como a Libertadores e o Brasileiro em ocasiões anteriores, Dyogo Alves segue construindo seu próprio caminho. Ser parte do elenco na final continental representa, para ele, uma oportunidade simbólica de transformar a tragédia em motivação, e de honrar os companheiros que não tiveram a mesma chance.

O goleiro, hoje nome presente no grupo profissional, traz no currículo a ascensão pelo clube, a homenagem ao ídolo e episódios decisivos nas categorias de base. Sua presença na delegação à final da Libertadores é, ao mesmo tempo, lembrança da tragédia de 2019, e a esperança de um recomeço com a camisa do Flamengo.

Se houver título, será a concretização de um percurso que começou no trauma e passou por recuperação, superação e trabalho, e que, para Dyogo Alves, carrega o peso da memória dos jovens que morreram, e a responsabilidade de representar quem ficou para trás.

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