cotas uerj: 22 anos de transformação social e trajetórias de vida

Cotas Uerj: 22 anos de transformação social e trajetórias de vida

Cotas Uerj: 22 anos de transformação social e trajetórias de vida

A Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) celebra mais de duas décadas de um programa que se tornou um divisor de águas na vida de milhares de estudantes: as cotas sociais e raciais. Implementado em 2003, o sistema de ação afirmativa da Uerj não apenas abriu as portas do ensino superior para jovens de origens diversas, mas também redefiniu trajetórias de vida, como atesta a experiência de ex-alunos que hoje ocupam posições de destaque na sociedade.

Henrique Silveira, subsecretário de Tecnologias Sociais da prefeitura do Rio e egresso de Geografia da Uerj, é um exemplo vivo do poder transformador das cotas. Nascido em Imbarié, um distrito humilde na Baixada Fluminense, Henrique relembra sua origem modesta: “Eu sou esse sujeito pobre, da baixada, como tantos outros aqui, que sempre trabalhou ajudando o pai em tudo, mas com a clareza da necessidade de estudar”. A oportunidade de ingressar na Uerj, ele descreve, foi um salto monumental. “Eu tenho muita clareza de que a cota transforma. Ela me permitiu deixar de ser um menino atrás de uma carroça, um burro sem rabo, para hoje estar à frente da gestão pública”.

A força da ação afirmativa na Uerj

A Uerj foi pioneira no Brasil ao adotar cotas sociais e raciais em seu vestibular, uma iniciativa que, desde 2003, tem impactado profundamente a composição de seu corpo discente. O sistema de cotas da universidade, que passou por uma revisão legislativa em 2018 e prevê outra em 2028, busca garantir o acesso ao ensino superior para grupos historicamente sub-representados. A universidade, inclusive, tem se dedicado a mapear a trajetória profissional de seus egressos, reunindo-os recentemente para discutir os rumos futuros da política de ação afirmativa.

Maiara Roque, dentista que ingressou na Uerj em 2013, compartilhou suas memórias sobre os desafios iniciais como cotista negra. “Depois que você entra, você adquire um sentimento de pertencimento, que você merece esse lugar”, afirmou. Ela relatou ter enfrentado questionamentos, mas ressaltou a importância de persistir: “Eu pensava: ‘não queriam que eu estivesse aqui, mas estou, vou fazer valer'”. Essa determinação se alinha com os resultados de pesquisas que, ao longo do tempo, demonstraram que não há diferença de rendimento entre estudantes cotistas e não cotistas.

Impacto social e a redução da desigualdade

As cotas raciais nas universidades têm sido um motor fundamental para a redução da desigualdade no acesso ao ensino superior. Embora os dados do IBGE de 2022 ainda mostrem uma disparidade, com 11,7% de pretos e 12,3% de pardos com nível superior em comparação com 25,8% de brancos, o avanço é inegável e as políticas de ação afirmativa, como as da Uerj, têm um papel crucial nesse cenário.

Maiara, que cursou Odontologia com o apoio de sua mãe, cuidadora de idosos, sente que sua formação na Uerj transformou sua visão de mundo e sua atuação profissional. Após atender em locais como o sistema prisional e a rede básica de saúde, ela montou seu consultório na Penha, bairro onde cresceu. “Eu acho que, de certa forma, estou devolvendo para minha comunidade essa oportunidade”, disse, destacando a importância de ter uma profissional negra e local atendendo a comunidade, que se sente mais à vontade e representada.

Desafios e propostas para o futuro das cotas

O modelo de cotas da Uerj se diferencia das universidades federais por cruzar a autodeclaração racial com critérios socioeconômicos, visando priorizar estudantes de camadas menos favorecidas. No entanto, egressos como David Gomes, que ingressou em História em 2011 via cotas após passar por um pré-vestibular popular, apontam que o recorte socioeconômico atual é uma barreira a ser superada, especialmente para a pós-graduação. “A grande questão hoje, na pós-graduação, é o recorte de renda. Temos que enfrentar essa discussão, porque a pessoa, por exemplo, que se forma em direito, medicina, até uma professora, na verdade, ela não se encaixa nesse recorte, é baixo”, explicou David, que é ativista pelos direitos humanos.

Ele defende que a Uerj abandone a exigência de critério socioeconômico para ingresso por cotas, especialmente em níveis mais avançados de formação. Atualmente, o critério de renda bruta por pessoa na família é de R$ 2.277, considerado baixo por muitos. David também ressalta a importância da coleta e difusão de dados sobre o impacto das cotas, uma iniciativa que a Uerj já tem buscado através da rede de ex-alunos.

A importância dos dados e o apoio à educação popular

Henrique Silveira, em sua perspectiva de geógrafo, enfatiza a relevância dos dados para a formulação de políticas públicas eficazes. Ele também advoga pela redução da burocracia para comprovar o perfil socioeconômico e pelo contínuo apoio a pré-vestibulares populares, projetos que conhece de perto. “O pré-vestibular foi o local que eu tive clareza da minha condição de negro”, compartilhou, refletindo sobre como a identidade racial é construída no contexto brasileiro. Ele relembrou sua própria trajetória, inicialmente resistente à ideia de cotas, mas que evoluiu para o reconhecimento de seu direito: “Fiz vestibular em 2005, era um daqueles ‘não quero cota’, mas ali eu tomei consciência que era meu direito”.

A Lei 8.121, de 2018, que rege as ações afirmativas na Uerj, destina 20% das vagas para cotas raciais (incluindo indígenas e quilombolas) e outros 20% para estudantes de escolas públicas. A legislação também permite o acúmulo de bolsas-auxílio com outras, como a de iniciação científica, melhorando as condições de permanência dos estudantes na universidade.

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