
Reforma Tributária Expõe Gargalos na Automação Fiscal de Empresas Brasileiras
A contagem regressiva para a implementação do Imposto sobre Valor Adicionado Dual (IVA dual) está forçando empresas brasileiras a confrontarem uma realidade preocupante: a fragilidade de seus processos fiscais. A menos de nove meses da entrada em vigor, um levantamento aponta que a maioria das companhias ainda opera com lentidão e uma dependência excessiva de tarefas manuais, um cenário que pode se agravar drasticamente com as novas exigências tributárias.
O estudo da V360, especializada em automação de pagamentos a fornecedores, revela um paradoxo alarmante. Embora 87% das empresas afirmem ter um alto nível de automação fiscal, os dados de operação mostram um quadro diferente. Essa discrepância é atribuída por especialistas à chamada “falsa automação”, onde processos são digitalizados, mas ainda exigem a intervenção humana para validação e conclusão.
Essa descoberta surge em um momento crítico, quando o país se prepara para uma das maiores transformações em seu sistema tributário. A adaptação ao novo modelo, que prevê a unificação de impostos sobre o consumo, promete pressionar ainda mais as estruturas empresariais que se mostram pouco eficientes. Conforme informação divulgada pela V360, a pesquisa ouviu 355 profissionais de médias e grandes empresas, muitas delas com alto volume operacional, sendo que 63% processam mais de 10 mil notas fiscais mensalmente.
A Realidade da Automação Parcial e Atrasos Significativos
Na prática, a automação fiscal está longe de ser completa. O levantamento da V360 indica que, embora 61% das empresas consigam capturar notas fiscais de forma automática, apenas 49% realizam o registro dessas notas no sistema sem qualquer tipo de ação manual. Isso ocorre porque os sistemas de gestão empresarial, conhecidos como ERPs, frequentemente necessitam de integrações e validações adicionais para operar plenamente no complexo ambiente tributário brasileiro.
“Muitas empresas acreditam que estão automatizadas, mas ainda dependem de pessoas para validar dados e concluir processos”, afirma Izaias Miguel, presidente-executivo (CEO) da V360. Ele explica que, mesmo com o documento entrando automaticamente no sistema, ajustes e conferências manuais ainda são necessários antes que ele siga adiante no fluxo operacional.
Um dado particularmente preocupante é o tempo médio para registrar uma nota fiscal. De acordo com o estudo, 62,2% das empresas levam mais de 20 dias para concluir esse processo, enquanto 22,3% ultrapassam a marca de 30 dias. Esses atrasos significativos expõem gargalos importantes na gestão fiscal.
Riscos Operacionais Elevados Devido à Falta de Validação Completa
A pesquisa também lança luz sobre as falhas na validação das notas fiscais. Apenas 48% das companhias realizam uma conferência completa, comparando itens, valores e quantidades com os pedidos de compra originais. Outras 44% efetuam checagens parciais, e uma parcela de 8% ainda opera de maneira totalmente manual neste quesito.
Esse cenário de validação incompleta ou inexistente aumenta consideravelmente os riscos operacionais. Pagamentos indevidos, erros fiscais e a perda de controle interno são consequências diretas, especialmente para empresas que lidam com um grande volume de fornecedores. “O tempo entre a emissão e o registro da nota é um termômetro claro de eficiência. Quando leva semanas, há acúmulo de exceções e retrabalho”, alerta Miguel.
Pressão Adicional com a Reforma Tributária e Obrigações Imediatas
A iminente reforma tributária promete intensificar esses desafios. As empresas terão que adaptar seus sistemas para operar simultaneamente com regras antigas e novas, além de lidar com tributos como o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que comporão o IVA dual. O principal obstáculo, segundo o CEO da V360, não reside apenas na compreensão da reforma, mas na sua execução dentro de estruturas complexas e pouco integradas.
Mesmo na fase de testes em 2026, com alíquotas simbólicas de 0,9% de CBS e 0,1% de IBS, as obrigações acessórias são imediatas. As empresas precisarão destacar esses novos tributos nas notas fiscais, preencher campos obrigatórios e garantir a correta classificação fiscal de produtos e serviços. Embora a Receita Federal tenha suspendido multas por falta da discriminação dos novos tributos até a regulamentação completa, a necessidade de adaptação é urgente.
Neste contexto, a automação fiscal transcende sua função meramente operacional, tornando-se um pilar estratégico. “Empresas mais eficientes tendem a ganhar agilidade para lidar com as mudanças, enquanto aquelas com processos fragmentados podem enfrentar mais custos, erros e dificuldades de adaptação”, conclui Izaias Miguel, reforçando a importância de uma automação robusta e integrada para a sobrevivência e o sucesso empresarial no novo cenário tributário.






