Delcy Rodríguez assume presidência interina da Venezuela
Com a ascensão de Delcy Rodríguez à presidência interina da Venezuela, o país sul-americano volta a ter uma figura feminina em destaque na política. Aos 56 anos, Delcy Rodríguez Góméz é um nome histórico do chavismo e considerada uma **mulher de confiança do presidente Nicolás Maduro**. Sua trajetória política é marcada por cargos de peso e uma formação acadêmica sólida, que a posicionam como uma das principais articuladoras do governo.
Trajetória e Formação Acadêmica
Nascida em Caracas, Delcy Rodríguez possui formação em Direito pela Universidade Central da Venezuela (UCV). Sua qualificação acadêmica se estende com uma pós-graduação em Direito Social pela Universidade de Paris e um mestrado em Política Social pela Universidade de Birkbeck, em Londres. Essa base educacional, aliada a uma **profunda imersão no ideário chavista**, a preparou para os desafios da liderança política.
A professora Carla Ferreira, do departamento de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca a solidez da carreira de Delcy Rodríguez: “Ela tem uma trajetória muito sólida. Estamos diante de um quadro político e teórico do mais alto gabarito, formada na melhor universidade da Venezuela, em uma das melhores universidades da Europa, que é a de Paris. Ela é um quadro de altíssimo nível, muito bem formada, teoricamente e politicamente.”
Ascensão no Governo Maduro
Delcy Rodríguez foi escolhida por Nicolás Maduro para o cargo de vice-presidente em 2018, uma posição que, diferente do Brasil, não é eleita em chapa, mas sim designada pelo presidente e passível de substituição. Além da vice-presidência, ela acumulou responsabilidades significativas como ministra da Economia e, mais recentemente, como presidente da PDVSA, a estatal petrolífera venezuelana, assumindo a liderança em 2024 após investigações de corrupção.
Sua atuação como vice-presidente e em outros cargos a consolidou como a **segunda figura mais importante do governo**, logo após o próprio Maduro. A professora Carla Ferreira reforça essa percepção, afirmando: “Sinceramente, eu não vejo um perfil melhor entre os quadros que eu conheço. Ela é o quadro venezuelano mais qualificado na atualidade.”
Raízes Revolucionárias e o Legado Familiar
A formação de Delcy Rodríguez está intrinsecamente ligada a uma **tradição familiar de militância socialista**. Seu pai, Jorge Antonio Rodríguez, foi um militante marxista que foi torturado e assassinado em 1976 pela extinta Direção de Serviços de Inteligência Policial (Disip). Esse contexto histórico, marcado pela repressão a movimentos de esquerda durante o regime de Punto Fijo, moldou a visão política de Delcy.
“Ela é filha de uma tradição revolucionária na Venezuela. Isso é algo muito importante, muito formativo, do ponto de vista ideológico e pessoal, para esse personagem político. Ela traz em si toda essa história e se manteve fiel a essa formação até os dias atuais”, explica a professora Carla Ferreira.
Desafios e Pressão Internacional
A carreira de Delcy Rodríguez foi marcada por sua atuação em momentos cruciais do governo chavista. Ela foi ministra da Comunicação e Informação, ministra das Relações Exteriores, período em que articulou a saída da Venezuela da Organização dos Estados Americanos (OEA), acusando o então secretário-geral, Luis Almagro, de conspirar contra o país. Posteriormente, presidiu a Assembleia Nacional Constituinte (ANC), instituição que aumentou o isolamento internacional da Venezuela e contribuiu para o embargo financeiro e comercial que afeta o país.
Recentemente, Delcy Rodríguez, assim como Nicolás Maduro, tem sido alvo de sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia. O presidente Donald Trump chegou a fazer ameaças diretas a ela, exigindo acesso aos recursos naturais venezuelanos. No entanto, especialistas como a professora Carla Ferreira consideram essas declarações como parte de uma **estratégia de desinformação** para minar o apoio interno ao governo chavista.
“Provavelmente, a Delcy não vai atender aos desejos do Trump. Vai atender as demandas como o Maduro já tentou atender, abrindo para as empresas estrangeiras e fazendo muitíssimas concessões. O problema é que o governo Trump quer tudo. Ele quer todo o controle direto sobre a PDVSA”, comentou a especialista.
Em resposta às pressões, Delcy Rodríguez tem reafirmado a soberania venezuelana. “Se há algo que o povo venezuelano e este país têm absolutamente certeza, é que jamais seremos escravos, jamais seremos colônia de qualquer império”, declarou em pronunciamento. A abertura para cooperar com os EUA, segundo a análise de Carla Ferreira, é uma postura estratégica diante da **superioridade militar americana**: “Nenhum país do mundo pode fazer frente militar aos EUA. Não é possível a Venezuela continuar com o discurso de enfrentamento. A Delcy, como quadro político de elevado nível que é, sabe disso.”