Venda do TikTok nos EUA para Oracle se consolida sob forte pressão política

A venda da operação do TikTok nos Estados Unidos para um consórcio liderado pela Oracle deve se concretizar, marcando um dos maiores negócios envolvendo uma empresa unicórnio chinesa, a ByteDance. A transação, estimada em US$ 14 bilhões, ocorreu sob intensa pressão do governo americano, que via a plataforma como um risco à segurança nacional devido à sua origem chinesa.

ByteDance perde controle, mas mantém participação minoritária

Na prática, a ByteDance, controladora original do TikTok, verá o poder de decisão e o controle sobre os dados dos usuários americanos migrarem para empresas alinhadas com o governo dos Estados Unidos. Embora a ByteDance ainda detenha 20% de participação, a gestão e o armazenamento de dados ficarão a cargo da Oracle, uma gigante de tecnologia americana, e do fundo MGX, ligado à família real dos Emirados Árabes Unidos. O TikTok é a quarta maior plataforma nos EUA, com cerca de 170 milhões de usuários.

Segurança Nacional versus Livre Mercado: Um Paradoxo

A especialista em regulação e desinformação, Andressa Michelotti, aponta um paradoxo na decisão americana. “Os Estados Unidos, com esse movimento de neoliberalismo econômico, usam ao mesmo tempo a justificativa da segurança nacional para poder controlar os dados de sua população. Afeta, ao mesmo tempo, o livre mercado e também a liberdade de expressão, que muitas vezes foi questionada pois houve a ameaça de fechar a plataforma”, avalia Michelotti, pesquisadora da UFMG e da Universidade de Utrecht.

Larry Ellison e o Círculo de Poder em Torno do TikTok

À frente da participação da Oracle no negócio está Larry Ellison, figura conhecida por seus alinhamentos com governantes. Ele se junta a um grupo de empresários influentes, apelidados de “brolygarcas”, que mantêm fortes laços com o poder político, como Mark Zuckerberg (Meta) e Elon Musk (SpaceX). A aquisição forçada ignora os apelos da ByteDance sobre a transparência e independência de suas operações em relação ao governo chinês.

Estrutura e Futuro do Aplicativo: Incertezas no Horizonte

Circulam na mídia especializada dos Estados Unidos informações desencontradas sobre a reestruturação do TikTok. Não se trata apenas de uma mudança de servidores, mas há a possibilidade de alterações no próprio aplicativo, com impactos desconhecidos na sua estrutura, aparência e funcionalidades. Assim como ocorreu com a aquisição do Twitter por Elon Musk e sua transformação em X, há um cenário de incertezas e possibilidades.

“Como é que esse TikTok se desmembra, nos Estados Unidos? Daí vem uma nacionalização, da qual fica uma plataforma à parte, ou ela ainda vai ter uma arquitetura que se comunique de alguma forma com a plataforma em outros países?”, questiona Andressa Michelotti. Uma das possibilidades é a “balcanização”, onde a plataforma se isolaria em operações locais.

O TikTok no Brasil: Operações Inalteradas

A ByteDance assegura que a mudança nos Estados Unidos não afetará as operações no Brasil. “A nova Joint Venture é específica para as operações do TikTok nos Estados Unidos e não impacta na experiência no Brasil”, afirmou a empresa. No entanto, especialistas veem o caso americano como um alerta para o debate regulatório e de governança da internet no Brasil.

Lições para o Brasil e a Soberania Digital

Rafael Evangelista, professor da Unicamp e conselheiro do CGI.br, destaca que o caso evidencia o papel central das plataformas digitais no debate público. “Não podemos esquecer das revelações de Edward Snowden, ainda em 2013, que mostrou a cooperação entre as plataformas de redes sociais e o Estado americano na construção de um sistema de espionagem global”, lembra Evangelista.

Para o Brasil, a discussão se volta para a soberania tecnológica, digital e política. A construção de um novo data center para o TikTok em Caucaia, no Ceará, com investimento previsto de R$ 200 bilhões, reforça a expansão da infraestrutura local. O setor aguarda a votação de projetos de lei que visam regular o mercado digital, como o PL 4675/2025, que trata da concorrência digital.

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