Carnaval em Pauta: Senado Discute Novas Regras para Financiamento da Folia
Enquanto a batucada ecoa pelas ruas e a energia contagiante do carnaval toma conta do país, o Senado Federal se torna palco de debates importantes sobre o futuro da festa. Diversos projetos de lei (PLs) estão em análise na Casa, propondo novas regras para o financiamento da folia, com visões que vão desde a restrição do uso de recursos públicos até a valorização das ricas tradições culturais brasileiras.
Projetos Buscam Transparência e Responsabilidade no Uso de Verbas Públicas
Um dos projetos em destaque é o PL 392/2026, de autoria do senador Bruno Bonetti (PL-RJ). A proposta visa proibir o uso de verba pública em homenagens personalistas. A iniciativa surgiu em meio a discussões sobre a decisão de uma escola de samba em homenagear uma autoridade pública, levantando questões sobre a impessoalidade e a moralidade administrativa.
O texto do PL 392/2026 estabelece que recursos públicos federais destinados a eventos culturais e escolas de samba não poderão financiar enredos, apresentações ou atividades que promovam a exaltação personalizada a autoridades ou agentes públicos em exercício. A proposta também veda o uso de símbolos associados a campanhas políticas e prevê sanções em caso de descumprimento, como a suspensão de repasses e a devolução de recursos.
Segundo o senador Bonetti, a medida busca garantir a impessoalidade e a moralidade administrativa, sem ferir a liberdade artística, desde que homenagens políticas sejam custeadas com recursos privados. “O que definimos aqui, com total transparência, é que a exaltação a governantes não deve ser custeada com dinheiro do povo. O papel da União é investir no fortalecimento do turismo e da identidade nacional, e não em cultos à personalidade”, afirma.
Combate à Apologia ao Crime e Intolerância no Financiamento Público
Outra proposta relevante é o PL 1.211/2025, do senador Cleitinho (Republicanos-MG). Este projeto estabelece regras claras para o financiamento público de eventos carnavalescos, prevendo a suspensão de repasses e a aplicação de multas para escolas de samba e blocos que utilizarem recursos públicos para promover apologia ao crime, ao tráfico de drogas ou à intolerância religiosa.
O objetivo, segundo o autor, é assegurar a responsabilidade na aplicação do dinheiro público, sem, contudo, interferir na criatividade artística ou na crítica social, elementos tradicionalmente presentes no carnaval. “Há espaço para crítica, para arte e para celebração, desde que isso não contrarie os princípios que regem o convívio social”, defende o senador.
Limites para Contratação de Artistas e Eventos Culturais
O PL 370/2026, de autoria do senador Angelo Coronel (PSD-BA), busca alterar a Lei de Licitações para estabelecer limites e critérios objetivos para a contratação de artistas e a realização de eventos culturais com recursos públicos nos municípios. A proposta fixa tetos de pagamento vinculados à Receita Corrente Líquida ou limitados a R$ 700 mil por artista ao ano.
O intuito é dar mais segurança jurídica e proporcionalidade aos gastos, evitando excessos sem inviabilizar iniciativas culturais. O senador destaca que a ausência de parâmetros objetivos tem gerado controvérsias e insegurança jurídica para gestores e profissionais do setor.
Valorização e Reconhecimento das Tradições Carnavalescas
Nem todas as propostas em tramitação no Senado possuem caráter restritivo. Algumas iniciativas visam especificamente valorizar elementos históricos e culturais do carnaval. Um exemplo é o PL 4.962/2023, da deputada Lídice da Mata (PSB-BA), que reconhece o trio elétrico como manifestação da cultura nacional.
Aprovado pela Câmara dos Deputados, o projeto destaca a origem baiana do trio elétrico, criado por Dodô e Osmar, que adaptaram instrumentos eletrificados a um veículo motorizado para animar multidões. O texto ressalta a importância do trio elétrico como um dos principais símbolos do carnaval brasileiro. “O trio elétrico é um dos grandes fenômenos musicais, artísticos e sociológicos do Brasil”, afirma a autora.
Legislações Existentes Reforçam o Valor Cultural do Carnaval
Paralelamente aos novos projetos, diversas iniciativas aprovadas nos últimos anos já se tornaram lei, reforçando o reconhecimento do carnaval como uma das mais importantes expressões culturais e econômicas do país. Essas normas abrangem desde o reconhecimento de festas tradicionais até a valorização de blocos, escolas de samba e eventos que impulsionam o turismo nacional.
A Lei 15.196/2025, originada do PL 4.191/2023, reconhece o Carnaval de Salvador como manifestação da cultura nacional, destacando sua força econômica e herança afro-brasileira. Já a Lei 15.188/2025, fruto do PL 1.730/2024, concede o mesmo reconhecimento ao Carnaval do Rio de Janeiro, apontando sua influência histórica e cultural. O Carnaval de Pernambuco também foi reconhecido pela Lei 15.137/2025, que destaca a diversidade de manifestações do estado.
Outras leis importantes incluem a Lei 14.845/2024, que reconhece blocos e bandas como manifestações culturais nacionais, e a Lei 14.567/2023, que reconhece as escolas de samba como patrimônio cultural brasileiro.
Eventos regionais também têm recebido atenção, como o reconhecimento do Carnaval de Nova Russas (CE) e do Carnaval de Aracati (CE) como manifestações culturais nacionais. Além disso, o Carnatal foi incluído no calendário turístico oficial do país pela Lei 15.286/2025, reconhecendo seu impacto econômico e importância para o turismo regional.


