
Justiça paraibana condena padre a mais de cinco anos de prisão por furto de celulares e determina devolução de R$ 525 mil
O padre Egídio de Carvalho Neto foi sentenciado a 5 anos, 6 meses e 20 dias de reclusão, além de multa, pela Justiça da Paraíba. A condenação refere-se ao furto de mais de 600 celulares, doados pela Receita Federal ao hospital filantrópico ligado à Igreja do qual ele era diretor em 2023. A decisão, assinada pela juíza Ana Christina Soares Penazzi Coelho, da 3ª Vara Criminal da Capital, foi divulgada pelo Ministério Público da Paraíba (MP-PB), responsável pela denúncia.
Um assistente que teria participado do crime também recebeu uma pena de 4 anos, 7 meses e 16 dias de prisão, somada a uma multa. Ambos os condenados deverão iniciar o cumprimento da pena em regime semiaberto. Além do tempo de reclusão, os dois deverão ressarcir o Instituto São José (mantenedor do Hospital Padre Zé) e a Arquidiocese da Paraíba com o valor de R$ 525 mil, a ser corrigido monetariamente desde a data do furto.
As defesas dos acusados declararam que já recorreram da decisão judicial e sustentam a inocência de seus clientes. Esta marca a primeira condenação entre as 11 ações judiciais em que o padre Egídio responde na Paraíba.
Prisão preventiva e questões de saúde marcam o caso
O padre havia sido preso preventivamente em novembro de 2023, no âmbito da operação Indignus. Contudo, desde abril de 2024, ele cumpre prisão domiciliar devido a questões de saúde, pois está em tratamento contra um câncer. O MP-PB alega que o religioso teria promovido uma série de desvios de recursos que totalizam R$ 140 milhões.
Conforme a acusação, os fundos deveriam ser destinados ao atendimento de pessoas em situação de vulnerabilidade no Hospital Padre Zé e ao fornecimento de alimentos a moradores de rua. Em vez disso, o Ministério Público aponta que ele teria adquirido imóveis e itens de luxo, utilizando nomes próprios e de terceiros (laranjas).
Operação “Pai dos Pobres” desvendou o furto das mercadorias
A denúncia que resultou na primeira condenação tem como base a operação “Pai dos Pobres”, realizada entre agosto e setembro de 2023. Na época, Egídio de Carvalho Neto ocupava a diretoria do Hospital Padre Zé/Instituto São José e da Ação Social Arquidiocesana. Samuel Rodrigues Cunha, o assistente também condenado, chefiava o setor de tecnologia da informação do hospital.
Em maio de 2023, ambos viajaram para Foz do Iguaçu (PR) com o objetivo de receber mercadorias doadas pela Receita Federal. A intenção era que os itens fossem comercializados pelo hospital, e o valor arrecadado utilizado na aquisição de, pelo menos, uma nova ambulância. No dia 26 de maio de 2023, a Receita destinou produtos avaliados em R$ 807 mil, incluindo aparelhos celulares.
Desaparecimento de 676 celulares gerou investigação
As mercadorias de maior valor foram encaminhadas em 15 caixas de papelão para a sala da Presidência do hospital em 1º de junho, sem conferência imediata por terceiros, o que, segundo a denúncia, ocorreu por determinação do padre. A conferência só foi realizada em 24 de julho, quando se constatou que 12 das 15 caixas estavam vazias. Após a contagem, verificou-se o furto de 676 aparelhos celulares, totalizando um valor de R$ 525 mil.
O furto foi comunicado à Polícia Civil pelo próprio padre, que apresentou uma lista com o inventário dos itens subtraídos, mas sem os números de IMEI (identificação única de cada aparelho). A polícia obteve os IMEIs junto à Receita Federal e iniciou a investigação, que levou a um homem que teria vendido parte dos celulares a terceiros. Em depoimento, ele afirmou ter comprado os aparelhos de Samuel Rodrigues Cunha.
Suspeita de interrupção de gravações e recursos desviados
A investigação também apontou que, em 26 de junho de 2023, houve uma interrupção na gravação das imagens do sistema de câmeras do hospital. O incidente só foi comunicado à empresa responsável três dias depois, e o sistema era operado por Samuel Rodrigues Cunha. Segundo o MP-PB, já foram identificados 19 imóveis atribuídos a Egídio Neto, e parte deles já teve pedido de alienação antecipada para garantir a reparação ao erário e às entidades vítimas das supostas fraudes. As denúncias oferecidas descrevem e imputam práticas como lavagem e ocultação de bens e capitais, peculato, obstrução de justiça e constituição de organização criminosa estruturada em múltiplos núcleos.
Em agosto de 2025, o MP-PB encaminhou parte dos fatos ao Ministério Público Federal, em vista da possível utilização de recursos públicos federais desviados.
Defesas alegam injustiça e buscam absolvição
A defesa do padre Egídio classificou a condenação como “uma grande injustiça” e reiterou que já recorreu da decisão, confiante de que o Tribunal de Justiça da Paraíba (TJ-PB) corrigirá o que considera uma “manifesta injustiça”. A defesa argumenta que as provas demonstram a inocência do padre, destacando que ele foi quem denunciou o furto às autoridades e que não há transações financeiras que corroborem sua participação no crime. “Lamentavelmente, não se julgam mais fatos e sim pessoas, ou a imagem que fazem sobre elas”, afirmou a defesa.
O advogado Aécio Farias, que representa Samuel Rodrigues Cunha, também informou a entrada com recurso. Segundo ele, seu cliente “agiu sob as ordens do padre e desconhecia que o produto da venda fosse outro que não a caridade”. A defesa buscará a absolvição “nas instâncias superiores”, declarando ainda que “o verdadeiro bandido é o sacerdote”.


