
Mães na Ciência: Iniciativas Inovadoras Buscam Combater o “Efeito Tesoura” e Garantir Permanência Acadêmica
No Brasil, embora a formação de doutoras supere a de doutores, mulheres ainda são minoria em cargos de docência e recebem menos bolsas de produtividade. Esse fenômeno, conhecido como “efeito tesoura”, é agravado para mães cientistas, cujas carreiras enfrentam barreiras adicionais após a maternidade.
A pesquisadora Fernanda Staniscuaski relata que a maternidade a obrigou a desacelerar profissionalmente, gerando um ciclo difícil de romper. “Quanto menos a mulher produz, menos ela vai ter oportunidade para ganhar financiamento”, explica a fundadora do movimento Parents in Science.
A luta por equidade na ciência tem impulsionado diversas iniciativas. Movimentos sociais, como o Parents in Science, buscam preencher lacunas de dados e dar visibilidade às dificuldades enfrentadas por mães pesquisadoras. Paralelamente, órgãos de fomento e instituições de ensino implementam políticas e editais para apoiar a permanência e o desenvolvimento dessas profissionais.
Conforme informação divulgada pelo Parents in Science, o Brasil carece de dados oficiais sobre o número de pesquisadores e docentes com filhos, o que dificulta a mensuração exata do impacto da parentalidade na carreira científica. No entanto, números já comprovam que o “efeito tesoura” é mais acentuado para as mulheres.
O “Efeito Tesoura” e o Impacto da Maternidade na Carreira Científica
O “efeito tesoura” descreve a progressiva diminuição da presença feminina em cargos mais altos na carreira acadêmica. Para mães cientistas, essa tendência se intensifica. Fernanda Staniscuaski, fundadora do Parents in Science, destaca que a pausa na carreira para a maternidade precisa ser reconhecida, mas as condições de retorno são cruciais.
Um levantamento do Parents in Science analisou a entrada e permanência na docência de pós-graduação, revelando diferenças significativas entre pais e mães. Entre os pais, 43,7% deixaram programas por iniciativa própria, enquanto 37,5% foram descredenciados por perda de produtividade. Já entre as mães, 66,1% foram descredenciadas por não apresentarem a produção mínima exigida.
A dificuldade de reinserção após o descredenciamento também é maior para as mães. Considerando aqueles que saíram por perda de produtividade, 38% das mães não conseguiram retornar, contra 25% dos pais. Essa disparidade evidencia a sobrecarga de responsabilidades que recai sobre as mulheres.
Além da questão de gênero, a pesquisadora ressalta a influência da raça. Mulheres pretas, pardas e indígenas continuam sendo os grupos mais sub-representados, e mães de filhos com deficiência também enfrentam barreiras adicionais.
Iniciativas de Apoio e Políticas Públicas para Mães na Ciência
A jornada de Cristiane Derne, assistente social e mestranda, ilustra os desafios enfrentados desde a graduação. Morando longe da universidade e com a responsabilidade de cuidar dos filhos, ela quase desistiu. O coletivo de mães da UFRJ foi fundamental para seu acolhimento e acesso a informações sobre direitos e benefícios.
O Atlas da Permanência Materna, publicado pelo Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade, compilou políticas de permanência em universidades federais. A principal medida encontrada é a assistência financeira, com valor médio de R$ 370 mensais, concedida por 63 das 69 instituições pesquisadas.
Contudo, a oferta de benefícios cai drasticamente na pós-graduação, com apenas 13 instituições estendendo o auxílio a alunas de mestrado e doutorado. Além disso, apenas oito universidades possuem cuidotecas, espaços para acolhimento infantil durante os estudos.
A professora de geografia Lizie Calmon, doutoranda, destaca a importância de reconhecer as habilidades adquiridas com o cuidado. “A experiência da maternidade traz para a gente um olhar mais apurado para algumas realidades”, afirma. Ela participou da articulação da lei que institui o Marco Legal Mães na Ciência no Rio de Janeiro, que propõe que o trabalho de cuidado conte como pontuação em processos seletivos.
Editais Específicos e Ações Nacionais para Promover a Equidade
O Rio de Janeiro foi pioneiro com o primeiro edital de financiamento voltado especificamente para mães cientistas, lançado pela Faperj em parceria com o Parents in Science e o Instituto Serrapilheira, apoiando 134 pesquisadoras.
A Faperj também implementou uma medida em seus editais gerais: currículos de candidatas mães, que tiveram filhos nos cinco anos anteriores à inscrição, são avaliados em um período de sete anos, dois a mais que os outros candidatos. “O que está sendo chamado de mérito? A produtividade”, questiona Letícia de Oliveira, da Faperj, ressaltando que nem todos partem do mesmo ponto.
Em âmbito nacional, a Capes lançou o programa Aurora, que oferece bolsas para que professoras de pós-graduação gestantes ou mães possam agregar um pesquisador de pós-doutorado às suas equipes. O objetivo é dar continuidade às pesquisas e orientações durante a licença maternidade.
Denise Pires de Carvalho, presidente da Capes, enfatiza que a inclusão é fundamental para uma ciência melhor. “Quando nós analisamos quem pede recursos financeiros para as agências de fomento, as mulheres pedem menos e ganham menos do que os homens”, aponta. Ela vê as iniciativas compensatórias como essenciais para combater o “viés implícito” e o silenciamento da mulher na ciência.
Avanços Legislativos e o Futuro da Ciência com Diversidade
A legislação brasileira também tem avançado. Uma lei sancionada em julho de 2024 prorroga por seis meses a data de conclusão de cursos em casos de gestação de risco, parto ou adoção, estendendo o prazo para bolsistas. Outra lei, em vigor desde abril de 2025, proíbe a discriminação por maternidade em processos seletivos e renovação de bolsas, inclusive nas entrevistas.
Essas medidas buscam não apenas mitigar os efeitos negativos da maternidade na carreira científica, mas também promover uma ciência mais diversa e, consequentemente, mais rica em perspectivas e resultados. A diversidade de quem faz ciência é vista como um caminho para a excelência.





