
Silvio Meira defende que a inteligência artificial exige um novo aprendizado para a sociedade, comparando seu impacto à revolução da internet e da imprensa.
O engenheiro e escritor Silvio Meira, um dos fundadores do CESAR (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife) em 1996, retorna ao Conselho de Administração da instituição em um momento crucial de transformações tecnológicas. Em entrevista à Agência Brasil, Meira destaca a inteligência artificial (IA) como o maior desafio da humanidade, comparando sua magnitude à invenção dos tipos móveis por Gutenberg em 1450.
Para Meira, a IA impacta diretamente a capacidade cognitiva e repetitiva dos seres humanos. Ele explica que enquanto a inteligência humana se divide em informacional, social e autônoma, a IA se destaca na imitação da inteligência informacional, executando tarefas cognitivas repetitivas com uma eficiência e escala sem precedentes.
“Tudo que eu e vocês fazemos que é cognitivo, exige uma formação, mas é repetitivo, a IA pode fazer e faz melhor do que o humano numa escala estratosfericamente mais elevada e mais barata”, afirma Meira, ressaltando a magnitude do desafio que essa tecnologia representa para o mercado de trabalho e para a sociedade como um todo.
IA: Um Novo Paradigma para o Trabalho Humano
O impacto da IA no mercado de trabalho é profundo. Silvio Meira exemplifica com a área médica, onde tarefas repetitivas de um clínico geral, como solicitar e analisar exames, podem ser automatizadas. Ele também aponta a escrita de código, antes considerada complexa, como uma área onde a IA já produz 95% do que os humanos escrevem, muitas vezes com qualidade superior.
Diante disso, o papel humano se desloca para a validação e a tomada de decisões estratégicas. “O meu trabalho ficou muito mais complexo. Antes, o que eu fazia? Eu me sentava e escrevia. Agora, eu entrego para uma máquina, ela me entrega o código pronto e eu tenho que validar tudo isso”, explica Meira.
A necessidade de validação se dá pela natureza probabilística da IA. Meira alerta que, embora eficiente, a IA pode cometer erros. “Ela tem a probabilidade de dar errado. Digamos que a IA tem 50 possibilidades diferentes de escrever um mesmo código, mas três delas estão erradas e, por alguma razão, ela escolhe um desses caminhos errados”, pontua.
Inovação no Porto Digital e a Proibição de Trabalhar Sem IA
No Porto Digital, um dos principais polos de inovação tecnológica do país, a integração da IA já é uma realidade. Empresas originadas do CESAR, como as spin-offs, adotaram uma política rigorosa: é proibido trabalhar sozinho. Cada profissional deve ter um agente inteligente atuando em conjunto.
Essa exigência abrange diversas áreas, como RH, atendimento e marketing. “É proibido você trabalhar sozinho. Você tem que ter um agente inteligente que você construiu, que trabalhe com você”, declara Meira. O objetivo é liberar os profissionais de tarefas repetitivas e mais baratas de serem executadas pela IA, permitindo que se dediquem a atividades de maior valor.
A agilidade proporcionada pela IA é um diferencial competitivo. Meira ilustra que um cliente pode ter seu problema resolvido instantaneamente por um agente inteligente, independentemente da disponibilidade do profissional humano. Isso otimiza o atendimento e melhora a experiência do cliente.
Desaprender para Prosperar na Era da IA
A transição para um cenário dominado pela IA exige uma profunda mudança de mentalidade e de habilidades. Silvio Meira enfatiza a necessidade de “desaprender as coisas”. Ele compara a situação atual com o surgimento da indústria automotiva, que gradualmente substituiu o mercado de carroças e carruagens.
Aumentos de produtividade de até 15 vezes já são observados em projetos. Uma tarefa que antes demandava dez pessoas e seis meses, agora pode ser concluída em um mês com uma equipe de quatro. “O que vai acontecer com as empresas que não conseguirem fazer isso? Não vão conseguir competir”, alerta Meira.
A IA, segundo ele, não é exatamente inteligente, mas sim uma imitação da capacidade cognitiva repetitiva humana. Tudo que é cognitivo e repetitivo será impactado. Em alguns setores, esse impacto já chega a 95% do trabalho humano, e a expectativa é que atinja 100% em poucos anos, não necessariamente substituindo, mas aumentando a capacidade humana de resolver problemas complexos.
Regulação de Plataformas e o Futuro das Eleições
Discutindo o livro “A Próxima Democracia”, Meira aborda a transparência em plataformas digitais e a necessidade de regulação. Ele cita o modelo chinês, onde o dissenso é permitido para a construção de consensos e resolução de problemas, diferenciando-o da agressividade gratuita.
A China implementa camadas de software estatais em plataformas, com regulações específicas, como limites de tempo para jogos online e a conexão entre desempenho escolar e acesso a entretenimento digital. Meira questiona a noção ocidental de liberdade levada ao extremo, argumentando que o direito de atacar e destruir a reputação de outros online não deveria ser absoluto.
Sobre as eleições em um cenário de IA avançada e falta de regulação, Meira expressa preocupação com a “incompetência” de gestões passadas e presentes por não terem regulado as plataformas digitais. Ele descreve o ambiente atual como um “faroeste”, apesar das proteções da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
“Deveríamos ter regulado e não criamos espaço político para discutir a regulação”, lamenta, atribuindo parte da dificuldade à leniência do Executivo e à atuação de lobbies. Ele defende que a regulação é um processo que exige discussão com a sociedade e participação das plataformas.





