
Voto cruzado na Paraíba em 2026 promete desafiar chapas tradicionais e redefinir disputa pelo Senado Federal
A um pouco mais de dois meses das eleições de 4 de outubro, o eleitorado paraibano se prepara para um cenário político onde o voto cruzado tende a ganhar destaque. Mais de 3,2 milhões de eleitores estão aptos a votar, e a tendência aponta para uma divisão significativa de votos entre candidatos de diferentes grupos políticos, especialmente na disputa pelas duas cadeiras do Senado Federal. Este fenômeno, segundo informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ocorre em um contexto de polarização nacional e fragmentação de alianças estaduais.
A dinâmica do voto cruzado implica que muitos eleitores pretendem escolher candidatos de agrupamentos distintos para ocupar as vagas senatoriais. Exemplos de combinações já especuladas incluem João Azevêdo (PSB) e Veneziano Vital do Rêgo (MDB), ou Veneziano com Nabor Wanderley (Republicanos), e ainda Marcelo Queiroga (PL) com Nabor Wanderley. Essas possibilidades reduzem a probabilidade de uma única aliança consolidar a conquista de ambas as vagas.
O precedente de 1994 e a reeleição no Senado
Este comportamento eleitoral contrasta com o que ocorreu em 1994, uma eleição considerada histórica na Paraíba. Naquele ano, embalado pelo Plano Real e pelo governo Itamar Franco, o então governador Ronaldo Cunha Lima foi eleito senador, auxiliou na eleição de Antônio Mariz para o Governo do Estado e garantiu a reeleição de Humberto Lucena ao Senado. Essa foi a última vez que uma mesma configuração política obteve o Governo do Estado e as duas vagas senatoriais simultaneamente. Humberto Lucena, que posteriormente presidiu o Senado Federal, permanece como o último senador paraibano a ser reeleito, um feito que nenhum outro ocupante do cargo conseguiu desde então.
Cenários políticos atuais e candidaturas em disputa
A atual configuração das principais chapas para a disputa estadual contribui para a tendência de voto dividido. No grupo governista, Lucas Ribeiro (PP) concorre ao Governo, com João Azevêdo (PSB) e Nabor Wanderley (Republicanos) disputando as vagas ao Senado. Na oposição, Cícero Lucena (MDB) encabeça a chapa, com Veneziano Vital do Rêgo (MDB) e André Gadelha (MDB) como candidatos ao Senado. O campo da direita apresenta Efraim Filho (PL) como candidato ao governo e Marcelo Queiroga (PL) como um dos postulantes ao Senado, ao lado de Major Fábio (Novo).
Influência do cenário nacional e peso das estruturas políticas
Jonas Duarte, professor do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), avalia que o contexto nacional continuará exercendo forte influência. “O principal fator que deve definir o voto para o Senado em 2026 é o alinhamento, ou não, com o governo federal. A Paraíba deve dar mais de 65% dos votos para o presidente Lula. Basta percorrer o interior do estado para perceber isso. As exceções são João Pessoa e Campina Grande, onde há uma classe média historicamente mais antipetista desde 2014”, pontuou Duarte em entrevista ao Portal Fonte83.
O historiador explica que, embora o cenário beneficie candidatos ligados ao campo governista, a divisão de votos não é impedida. “Mesmo assim, candidatos ao Senado conseguem penetrar nesse eleitorado porque não pertencem ao PT, embora sejam identificados com o campo de apoio ao presidente Lula”, argumentou. Para ele, João Azevêdo e Veneziano largam como favoritos, devido à máquina do Governo do Estado e apoio de importantes grupos políticos.
Duarte ressalta, contudo, que o apoio do governador tem limites. Ele relembra 2018, quando Veneziano foi impulsionado pelo então governador Ricardo Coutinho, e 2022, quando a divisão do campo governista favoreceu Efraim Filho. “O fato concreto é que a divisão favoreceu Efraim”, explicou.
A prevalência do voto cruzado e novos fatores eleitorais
“O voto cruzado sempre foi uma característica do eleitor paraibano e acredito que continuará sendo”, afirma Jonas Duarte. Ele aponta que o fortalecimento das lideranças municipais, impulsionado pelas emendas parlamentares, favorece nomes como Nabor Wanderley. A base consistente do bolsonarismo na Paraíba também pode concentrar votos em um único candidato, como Marcelo Queiroga, potencialmente o tornando uma surpresa na eleição.
O professor considera pouco provável que a Paraíba repita o desempenho eleitoral de 1994. “A eleição de 1994 teve características muito específicas por causa do Plano Real, que deu enorme prestígio ao governo Itamar Franco e impulsionou Fernando Henrique Cardoso”, frisou. Segundo ele, o contexto atual é mais fragmentado e polarizado, onde ser aliado de Lula não garante vitória automática. O fortalecimento do Congresso e o poder dos prefeitos influenciam diretamente o eleitorado, consolidando alianças.
A avaliação de Jonas Duarte reforça a tendência de uma disputa marcada pelo voto dividido. Alianças estaduais, influência nacional, a força dos prefeitos e o desempenho individual dos candidatos devem pesar mais do que a fidelidade a uma única chapa. A tentativa de reeleição de Veneziano Vital do Rêgo e a disputa entre os demais candidatos devem concentrar as atenções até a votação de 4 de outubro.





