
Astréa: O Legado de um Bicampeão Inesquecível no Futebol Paraibano
Muito antes de as chuteiras tocarem a grama paraibana, o Astréa já escrevia seu nome na história de João Pessoa. Fundado em 30 de maio de 1886, o clube nasceu com um propósito multifacetado, visando o desenvolvimento literário, esportivo e recreativo da capital. Sua trajetória, que atravessa quase um século e meio, inclui um capítulo de ouro no futebol, com dois títulos paraibanos consecutivos em 1942 e 1943.
A fundação do Club Astréa ocorreu em um período de efervescência social em João Pessoa, marcado por bailes e encontros familiares. Alonso Moreira, Eugênio Toscano de Brito, Cordeiro Serrão, Antônio Bernardino dos Santos e o coronel Augusto Gomes da Silva foram os visionários por trás da criação desta sociedade literária e recreativa.
O nome Astréa, uma homenagem ao asteroide descoberto em 1845 e à deusa grega da justiça, inocência e pureza, prenunciava a nobreza de suas aspirações. Ao longo dos anos, o clube se consolidou como um pilar da vida social pessoense, palco de eventos culturais e testemunha de importantes momentos históricos da cidade.
O Inesperado Desabrochar no Futebol
A incursão do Astréa no futebol aconteceu em 1941, um ano crucial para o esporte na Paraíba. Naquele período, o Campeonato da Capital, equivalente ao Campeonato Paraibano, reunia as principais equipes da cidade. Uma reviravolta política e desportiva abriu as portas para o clube.
O Botafogo-PB, após um litígio com a Liga Desportiva Paraibana (LDP), viu-se sem calendário. Em uma parceria improvável, o Astréa criou seu departamento de futebol, absorvendo grande parte da base do Botafogo, incluindo nomes como Pagé, Quidão, Geraldo e Zé de Holanda, que já eram campeões estaduais pelo clube alvinegro.
Com o forte apoio financeiro e político do usineiro Renato Ribeiro Coutinho, o projeto esportivo do Astréa ganhou respaldo para montar uma equipe competitiva. O primeiro teste veio em 16 de novembro de 1941, em um amistoso contra o Sport Recife, que resultou em uma derrota por 5 a 2, mas serviu como valiosa preparação.
A Conquista do Bicampeonato Inédito
O ano de 1942 marcou a estreia oficial do Astréa no Campeonato Paraibano. Após vencer o Torneio Início, a equipe mostrou força, mas sofreu reveses, como a derrota para o Treze. Isso levou a diretoria a investir ainda mais, contratando o uruguaio Carlos Viola, o primeiro treinador estrangeiro campeão na Paraíba, e jogadores experientes como Rubinho, Omar e o artilheiro Henrique de Oliveira.
Com a nova estrutura, o Astréa embalou uma sequência de vitórias, incluindo um expressivo 4 a 2 sobre o Treze e um 6 a 1 contra o Palmeiras, com cinco gols de Henrique. O Campeonato Paraibano de 1942 foi conturbado, com desistências de Auto Esporte e Cabo Branco. Mesmo assim, o Astréa sagrou-se campeão após o Treze se recusar a disputar a final, resultando em um WO para o time da capital.
Em 1943, o Astréa confirmou sua hegemonia, conquistando o bicampeonato de forma avassaladora. A equipe venceu todos os quatro jogos que disputou oficialmente, marcando 18 gols e sofrendo apenas sete. A campanha vitoriosa solidificou o Astréa como um dos grandes clubes da história do futebol paraibano, com jogadores como Pagé, Henrique e Geraldo em destaque.
O Fim de uma Era e o Legado Eterno
A passagem do Astréa pelo futebol foi meteórica. Em 1944, com a regularização do Botafogo-PB, os jogadores retornaram ao clube de origem. Sem sua base, o Astréa encerrou seu departamento de futebol, mas seu legado perdura.
Um dos maiores símbolos daquela época foi Pagé, o lendário José Maia de Novaes. Ídolo botafoguense, ele defendeu o Astréa durante a licença do Belo, conquistando os títulos de 1942 e 1943, antes de retornar e conquistar mais títulos pelo Botafogo e pela Seleção Paraibana. Tragicamente, Pagé faleceu em 1947 na queda de um avião.
Hoje, o Astréa permanece como uma instituição tradicional de João Pessoa, preservando um patrimônio histórico de quase 140 anos. Embora o futebol tenha se encerrado há décadas, a memória do Astréa como bicampeão paraibano vive como um capítulo vibrante e inesquecível na rica história do esporte na Paraíba.





