Jorge Couto Pimentel revela o coração do sertão baiano em sua obra de estreia, “A Incrível Expedição a Brejinho das Ametistas”, um documentário afetivo e fundamental.
O escritor Jorge Couto Pimentel lança “A Incrível Expedição a Brejinho das Ametistas”, publicado pela Folhas de Relva Edições. O livro é um mergulho profundo e emocionante nas raízes de Brejinho das Ametistas, distrito de Caetité, no Alto Sertão da Bahia, um local que foi um dos maiores centros de extração e exportação de ametistas do país no século XX.
A narrativa, conforme divulgado pelo MaisPB, nasceu do retorno do próprio autor à sua terra natal, oferecendo um olhar cinematográfico e detalhado sobre a paisagem e a memória coletiva de sua comunidade, exibido em quadros quase fotográficos ao longo das páginas.
Filho de garimpeiro e de uma costureira, Jorge Couto Pimentel faz sua estreia literária com esta obra que propõe um resgate histórico e afetivo, desde os garimpos baianos até a Alemanha, revisitando a marcante imigração de mineradores e empresários alemães.
A Capa: Um Retrato da Memória Local
A capa do livro é uma obra de arte em si, um óleo sobre tela pintado por Cidão, retratando a antiga feira de tropeiros de Brejinho das Ametistas. O artista local, amigo de infância do autor, recriou a paisagem da praça central a partir de fotografias antigas e, principalmente, da memória afetiva, resultando em uma peça singular em arte naïf que dialoga profundamente com o conteúdo da obra.
“A imagem dialogava profundamente com o que eu estava escrevendo”, explica Pimentel em entrevista ao MaisPB. A igreja tombada e o casarão que pertenceu ao pai do cantor Waldick Soriano, também em processo de tombamento, reforçam o valor histórico e cultural da ilustração, que para o autor, representa a essência de uma história que nasce e se conta a partir do interior, com o objetivo de expandir suas fronteiras literárias.
A Expedição: Do Sertão à Alemanha
“A Incrível Expedição a Brejinho das Ametistas” não se limita a um retorno geográfico, mas se configura como uma jornada investigativa. Pimentel, ao lado da jornalista Chiara Quintão e, posteriormente, do escritor e editor Alexandre Staut, embarcou em uma pesquisa que o levou da Bahia à Alemanha para reconstituir a história da imigração alemã no distrito.
A presença germânica foi tão significativa que resultou na fundação de uma subsidiária da empresa H. Albert Becker e na circulação de uma moeda própria em Brejinho a partir de 1918, conforme apurado pelo autor. Pimentel resgata esses fatos com rigor histórico, utilizando documentos raros, cédulas originais e visitas a locais históricos.
Um Mosaico de Histórias e Lendas
A obra vai além da história econômica e da imigração, dando voz aos moradores e personagens regionais através de dezenas de entrevistas. O livro aborda desde o folclore popular, com causos de visagens e lobisomens, até a invisibilidade histórica de povos negros e originários, o papel crucial das “mulheres faisqueiras” e a história de figuras célebres como Waldick Soriano.
Aborda também as transformações econômicas da região, passando pela escassez e auge do garimpo, conflitos por terra e os novos ciclos de desenvolvimento com a instalação de parques eólicos e projetos de mineração de ferro. A relevância da obra foi destacada na 10ª edição da Flipelô (Festa Literária Internacional do Pelourinho), em Salvador.
O Legado do Garimpo e a Identidade do Sertão
Jorge Couto Pimentel, formado em Medicina Veterinária e executivo, expressa em sua estreia literária a crença de que o garimpo, embora fonte de riqueza, também devastou muitas vidas. Ele defende a necessidade de revisitar o modelo extrativista, garantindo contrapartidas sociais, ambientais e culturais para as comunidades afetadas.
O autor propõe um futuro para Brejinho das Ametistas baseado no fortalecimento da agricultura familiar e no desenvolvimento do turismo cultural e histórico, explorando o potencial do garimpo como atração. Ele enfatiza a importância de resgatar a participação negra na exploração das ametistas, frequentemente ofuscada pela história da imigração alemã.
“A riqueza de um lugar não pode ser medida apenas pelo que se retira do solo. Ela também está nas pessoas, na memória, na cultura e na identidade que precisam permanecer depois que a exploração passa”, conclui Pimentel, reforçando que o livro é uma semente para que essa história nunca mais se perca.


