
CNC aponta recorde de endividamento familiar, mas com alívio na inadimplência e no tempo de atraso de pagamentos
O cenário financeiro das famílias brasileiras em julho apresentou um paradoxo: o endividamento atingiu o maior patamar já registrado, mas, ao mesmo tempo, a inadimplência mostrou sinais de recuo. A proporção de lares com dívidas em atraso ou não chegou a 82%, um aumento em relação aos meses anteriores e ao ano passado, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Contudo, a parcela de famílias que enfrentam dificuldades para honrar seus compromissos financeiros diminuiu. A taxa de inadimplência caiu para 29,8%, e o tempo médio que as contas ficam em atraso também registrou uma trajetória de queda. Esses dados, parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), fornecem um panorama importante sobre a saúde financeira do país.
A pesquisa, que ouviu 18 mil famílias em todo o Brasil, considera diversas modalidades de dívida, como cartão de crédito, cheque especial, carnês, empréstimos pessoais e financiamentos. A CNC destaca que o endividamento, por si só, não é necessariamente negativo, pois pode impulsionar o consumo e aquecer a economia. No entanto, a preocupação surge quando a capacidade de pagamento é comprometida.
Cartão de crédito lidera o ranking de endividamento familiar
O cartão de crédito se consolida como o principal vilão do endividamento das famílias brasileiras, sendo responsável por mais de 85% das dívidas contraídas. Outras modalidades como carnês (16,1%) e crédito pessoal (13%) também pesam no orçamento doméstico, conforme aponta o levantamento da CNC. Financiamentos de casa e carro, crédito consignado e cheque especial completam a lista, demonstrando a diversidade de compromissos financeiros assumidos pelos consumidores.
Famílias de baixa renda são as mais afetadas pelo endividamento
Os dados da CNC revelam uma clara correlação entre renda e endividamento. As famílias com rendimento de até três salários mínimos apresentam a maior proporção de endividados, atingindo 84,9%. Em contrapartida, lares com renda superior a dez salários mínimos registram um índice de endividamento menor, em torno de 72%. Essa disparidade se reflete também na inadimplência, que afeta mais severamente os mais pobres.
Redução da Selic pode trazer alívio gradual para o bolso
A divulgação da pesquisa de endividamento ocorreu logo após a decisão do Banco Central de reduzir a taxa básica de juros, a Selic, de 14,25% para 14% ao ano. Segundo o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, essa medida é um passo importante para melhorar as condições de crédito, embora seus efeitos não sejam imediatos. A expectativa é que a queda dos juros contribua para a diminuição do custo de novas operações e para a renegociação de dívidas.
Bentes pondera que o elevado comprometimento da renda das famílias sugere que a recuperação da capacidade de consumo será gradual. A continuidade da flexibilização monetária, condicionada ao controle da inflação, poderá auxiliar no alívio do orçamento doméstico, especialmente para as famílias de menor renda, reduzindo a pressão financeira sobre elas.
Projeções indicam continuidade da alta no endividamento
A CNC projeta que o indicador de endividamento familiar deve manter a trajetória de alta nos próximos três meses, com previsão de atingir 82,6% em setembro. Paralelamente, o percentual de famílias inadimplentes também deve registrar um leve aumento, fechando o mês em 30,3%. Essa perspectiva sinaliza a necessidade de atenção contínua às finanças pessoais e às políticas econômicas que visam estabilizar o cenário financeiro do país.





