
João Pessoa enfrenta encarecimento e trânsito intenso com boom populacional impulsionado por jovens em busca de qualidade de vida
A capital paraibana, João Pessoa, experimenta um cenário de custo de vida elevado e valorização imobiliária acelerada, impulsionado pela chegada de novos moradores, muitos deles jovens profissionais buscando desacelerar e investir. Essa transformação altera a dinâmica da cidade, que antes era conhecida por sua tranquilidade e baixo custo.
A publicitária Rebeca Cirino, 39 anos, que retornou à cidade após viver em São Paulo, relata a mudança percebida nos preços. “Quando eu morei aqui, em 2010, era outra realidade. Hoje, a gente sente diferença em tudo, principalmente nos preços”, afirma. Ela aponta que o custo de um coco, por exemplo, saltou de R$ 2 em 2022 para R$ 6 ou R$ 7 atualmente. Seu marido, o advogado Ezequiel Ribeiro, 35 anos, corrobora o aumento nas despesas básicas, como supermercado e restaurantes, impactando o cotidiano do casal.
O mercado imobiliário também reflete essa nova realidade. O preço médio do metro quadrado em João Pessoa dobrou em poucos anos, passando de R$ 4,5 mil em 2019 para R$ 8 mil em 2026, conforme o índice FipeZap. “Os preços eram bem mais acessíveis quando chegamos. Hoje, subiram muito, tanto para compra quanto para aluguel”, observa Ezequiel.
O trânsito, antes um ponto de calma, agora se torna um desafio. Rebeca comenta que um trajeto de cinco minutos pode se estender por meia hora em horários de pico. Ezequiel atribui essa mudança ao crescimento recente, especialmente em bairros como o Bessa, que tem atraído muitos novos residentes.
João Pessoa se consolida como polo de atração populacional
O aumento populacional é um fator-chave na transformação da cidade. Dados do Censo do IBGE indicam que João Pessoa foi a quinta capital brasileira que mais ganhou habitantes, com uma taxa de crescimento anual de 1,19%. A cidade registrou um acréscimo de 110 mil novos moradores em 12 anos, totalizando atualmente 833.932 habitantes. Esse avanço a posiciona como um dos principais polos de atração do país.
O ambientalista Marco Túlio Gusmão, 58 anos, morador há mais de quatro décadas, nota que o crescimento urbano trouxe uma nova dinâmica, com a valorização imobiliária sendo um dos principais vetores. A capital paraibana apresentou a segunda maior valorização imobiliária entre as capitais do país, com alta de 15,15% em um ano, segundo o Índice FipeZAP.
“Esse aumento acaba impactando o custo de vida de forma geral, refletindo em serviços, lazer e consumo cotidiano”, pontua Gusmão. Ele também alerta para a discussão sobre gentrificação, à medida que o aumento dos preços pode forçar moradores de longa data a se mudarem para áreas mais afastadas.
O aumento na circulação de veículos, que passou de 474 mil em 2024 para mais de 501 mil em 2026, segundo a Senatran, também contribui para o congestionamento e impacta diretamente o tempo de deslocamento.
Planejamento urbano sob a ótica do mercado imobiliário
Para o geógrafo Alexandre Sabino do Nascimento, professor da UFPB, o crescimento da cidade segue um planejamento voltado para interesses fundiários e imobiliários. “Não podemos dizer que a cidade está sem planejamento. O que temos é um planejamento que atende a determinados interesses”, afirma Nascimento. Ele descreve uma “simbiose” entre a abertura de vias e oportunidades para o investimento imobiliário.
Nascimento critica a redução da participação popular em decisões sobre o uso do solo, como audiências públicas e conselhos urbanos, o que, segundo ele, gera um distanciamento entre as decisões e o cotidiano dos moradores. Essa dinâmica contribui para um déficit habitacional de cerca de 50 mil domicílios e o comprometimento de mais de 30% da renda familiar com aluguel.
“Estão criando uma cidade para o mercado imobiliário”, sentencia o pesquisador, ressaltando que incorporadoras ampliam a compra de terrenos, formando “bancos de terra” e reduzindo a oferta disponível, o que eleva os preços.
Valorização imobiliária e os novos perfis de moradores
O corretor de imóveis Caio César de Queiroz Ferreira destaca a concentração da valorização imobiliária nos bairros da orla, impulsionada pela chegada de um público mais jovem e economicamente ativo, que vê João Pessoa não apenas como destino de descanso, mas como local para viver e investir.
Em bairros como Cabo Branco, o valor do metro quadrado atingiu R$ 12,3 mil, um aumento de 10,4% em 12 meses. “Existe uma presença forte de aposentados, mas o que chama mais atenção ultimamente é a vinda de um público mais jovem e economicamente ativo”, diz Ferreira.
O aumento na procura por imóveis, aliado à menor oferta de novas construções no curto prazo, pressiona tanto o mercado de compra quanto o de locação. Em alguns bairros da orla, os aluguéis já acumulam altas entre 20% e 30% nos últimos anos, transformando imóveis em ativos financeiros e elevando o custo de vida.
Saneamento básico e os desafios da infraestrutura
O avanço urbano de João Pessoa também expõe fragilidades na infraestrutura, especialmente no saneamento. Dados do Instituto Trata Brasil apontam que 72,36% do esgoto da cidade é tratado, mas o restante tem destino incerto, podendo contaminar rios e o mar.
O pesquisador Joácio Morais Júnior, da UFPB, alerta que o ritmo de expansão da cidade não foi acompanhado pela rede de esgotamento. “O crescimento urbano acelerado, especialmente com a verticalização na orla e a expansão para outras zonas, gera uma pressão sem precedentes, pois a infraestrutura de coleta não acompanhou esse avanço”, afirma.
Esse cenário pode levar à poluição de rios e praias, com risco de danos irreversíveis a ecossistemas e à economia local, afetando pesca e turismo. Para Júnior, “as ações do poder público precisam atacar tanto a infraestrutura invisível (saneamento) quanto o planejamento visível (uso do solo)” para equilibrar o crescimento com a sustentabilidade.


